Naturalis: quando a natureza chega à mesa

Conheça o restaurante em meio à natureza: histórias, decorações e mais!
“É música que inspira, súbita, suave, abstrusa e à luz de uma cantiga”. O verso é de um dos poemas de Régis Gonçalves, poeta e escritor de Santa Bárbara. As ruas ecoam os versos e fazem questão de parar em um lugar que todo mineiro ama: na mesa de um bom restaurante.
E aqui, próximo à Santa Bárbara, em Brumal, temos uma parada obrigatória: o Naturalis. O restaurante conta com uma proposta totalmente diferente de tudo o que você já viu. Em meio à natureza, as mesas, os desenhos no chão e o trançar dos galhos, te levam a uma experiência além do sabor.
O proprietário, Pedro Lúcio Thomasi, 41, trabalhou em hotéis, restaurantes e hostels, além de atuar como guia de turismo, experiência que também o aproximou da cozinha. A familiaridade com o setor vinha ainda de casa: seu pai já havia sido dono de restaurante. A combinação entre a estrutura existente, a relação com a comunidade e essa experiência fez nascer o Naturalis como restaurante.

A abertura, porém, aconteceu em um dos momentos mais difíceis para o setor. O negócio começou durante a pandemia, após o período de lockdown e das restrições impostas em Minas Gerais. Quando as atividades foram flexibilizadas, o movimento surpreendeu. Depois de meses dentro de casa, as pessoas queriam voltar a sair, conversar e ocupar os espaços públicos.
“As pessoas estavam afoitas a sair, a estar do lado de fora, a se conversar de novo”, conta Pedro.
O que inicialmente seria um bar de funcionamento apenas aos fins de semana rapidamente ganhou outra dimensão. No começo, eram apenas Pedro e a esposa: enquanto ele preparava os drinks e cuidava da cozinha, ela ficava responsável pelo caixa e pelo atendimento. Em poucas semanas, porém, o movimento exigiu reforços. Novos funcionários foram contratados sucessivamente e, em cerca de dois meses, a equipe já contava com cinco pessoas além do casal.

Cultivo local e produção artesanal
No Naturalis, a relação com os ingredientes começa antes mesmo de a comida chegar à cozinha. Na propriedade onde funciona o restaurante, Pedro mantém duas hortas de aproximadamente 10 por 20 metros cada, cuidadas diariamente por Orlando, funcionário responsável pelo cultivo e pela área ornamental.
A produção combina hortaliças tradicionais, como variedades de alface, coentro, alho-poró, brócolis, berinjela e tomate, com ingredientes que fazem parte da própria identidade de Brumal. Um dos exemplos é a taioba, verdura de folhas escuras muito apreciada pela comunidade local.
“Eu gosto muito de falar da taioba porque ela é uma verdura que a comunidade local de Brumal gosta muito, valoriza muito”, explica Pedro. Segundo ele, a planta sempre esteve presente na propriedade e agora está sendo multiplicada para ganhar ainda mais espaço no restaurante.
A taioba aparece em pratos e em um caldo preparado com costelinha. A ideia, mais do que simplesmente utilizar um ingrediente local, é recuperar um sabor que faz parte da memória da comunidade. “É trazer isso de volta. Na propriedade sempre teve muita taioba e agora a gente está multiplicando-a”, conta.
No cardápio, o Naturalis encontrou sua identidade na combinação de três tradições gastronômicas: mineira, italiana e francesa. Para Pedro, a escolha começa pelo reconhecimento da própria cozinha de Minas Gerais, que considera extremamente saborosa, mesmo sendo mais robusta.
“Eu posso dizer que com certeza a nossa culinária mineira é realmente muito boa”, afirma.

Carnes de porco, tropeiro e couve dividem espaço com ingredientes associados à gastronomia italiana, como tomate seco, pesto, bruschetta e burrata. Já a influência francesa aparece principalmente nos molhos — agridoces, cítricos e azedos — que acompanham diferentes carnes e pratos. O restaurante tem muitos pratos autorais, incluindo a Costelinha a la brumal e o Filé mignom ao mel de vinho – além também de drinks de própria assinatura.
Embora esteja inserido em uma região de forte vocação turística, o Naturalis construiu uma relação muito próxima com o público local. Segundo Pedro, cerca de 75% dos clientes são moradores da região, enquanto os turistas representam aproximadamente 25%. Entre os visitantes de fora, parte chega atraída pelo Santuário do Caraça e outra parcela escolhe a região para passar o fim de semana longe dos grandes centros.

Essa mistura de públicos também ajuda a explicar a estratégia adotada pelo restaurante. Depois de funcionar inicialmente às sextas, sábados e domingos, o Naturalis decidiu abrir também às quintas-feiras. Para criar um motivo a mais para o cliente voltar, surgiu o rodízio de pizzas, com 30 sabores, incluindo cinco doces, preparados em massa extrafina.
“A gente já começou a abrir na quinta-feira com o rodízio de pizzas, porque a nossa pizza é famosa aqui na região”, conta Pedro. A estratégia, que no começo teve seus altos e baixos, acabou se consolidando. Hoje, quinta-feira está entre os dias de maior movimento do restaurante, ao lado do domingo, tradicionalmente forte para os almoços em família na região do Vale do Caraça.
A sexta-feira ganhou outra proposta: a noite de massas artesanais, uma oportunidade para explorar ainda mais a influência italiana presente na cozinha da casa, com massas frescas preparadas na hora. Já aos sábados e domingos, o destaque fica para o prato do dia, pensado especialmente para um público que frequenta o restaurante com regularidade.
“Às vezes tem cliente que é tão assíduo que já experimentou todo o cardápio e quer algo novo”, explica Pedro.
A ideia acaba criando um ciclo interessante: o cliente encontra sempre alguma novidade, a equipe é estimulada a experimentar e melhorar receitas e o restaurante mantém as redes sociais movimentadas. “Eu acho que ele tem muitos elementos positivos para todo mundo”, resume.
Mais do que comer
Mas talvez a proposta do Naturalis fique mais clara quando Pedro fala sobre aquilo que gostaria que o cliente levasse consigo depois da refeição. Para ele, a experiência não deveria terminar quando o prato é retirado da mesa.
A primeira palavra que vem à cabeça é reflexão.
“Uma reflexão sobre estar em meio à natureza, porque essa é a proposta primordial”, explica. O próprio nome da casa remete a essa ideia, reforçada pelo espaço cercado de verde e plantas.

A música também faz parte dessa experiência. O restaurante mantém uma curadoria própria, com repertório que mistura músicas brasileiras antigas e novas, escolhidas não apenas pela melodia, mas também pelo significado das letras.
“A gente tenta fazer um repertório de músicas bem diverso, mas que seja sempre muito brasileiro”, conta. Segundo Pedro, o repertório acabou se tornando também um dos elementos lembrados pelos clientes.
E existe ainda a reflexão sobre a própria comida. Com ingredientes frescos, muitos deles produzidos na propriedade, o restaurante procura equilibrar proteína, carboidrato e vegetais. “A gente sempre tem uma coisa verde”, diz Pedro ao falar dos pratos do dia.
No fim, o Naturalis parece querer construir uma experiência que vá além da gastronomia. É um restaurante que tenta fazer o cliente desacelerar, olhar ao redor, ouvir, experimentar e, quem sabe, sair da mesa levando algo além do sabor da refeição.

Espaço de aulas e fornecedores
Além do restaurante, a propriedade também abriga um espaço independente dedicado às aulas de yoga, administrado pela esposa de Pedro, Kadigia de Fátima, 35, com formação em educação física. A atividade existe há cerca de três anos e atende principalmente mulheres da região. Apesar de compartilharem o mesmo espaço físico, o yoga e o restaurante funcionam de forma independente.
Na cozinha, por outro lado, a relação com o território aparece diretamente nos ingredientes. O Naturalis mantém uma rede de fornecedores locais: a costelinha, por exemplo, vem de um produtor de Santa Bárbara que cria, abate e defuma o próprio porco; o mel é produzido em Brumal; o restaurante utiliza o Queijo Curado do Caraça e compra geleias de uma produtora de Florália, distrito de Santa Bárbara.
“A gente trabalha com vários fornecedores locais, sim”, conta Pedro.
Essa proximidade ajuda a colocar no prato produtos que carregam a identidade da região e complementam a proposta do restaurante de reunir referências mineiras, italianas e francesas.
Atualmente, o Naturalis conta com oito funcionários diretos. Entre eles, Yanet Homez Rangel, 35, gerente do atendimento, se destaca. Cubana, Yanet é de Santa Clara, conhecida como a "cidade do Che", devido à batalha na cidade que culminou ao triunfo da Revolução Cubana.
Chegou ao Brasil em 2022 em busca de melhoria de vida e trabalha há 2 anos e meio no restaurante. Com um filho de 8 anos, Yanet nos contou um pouco sobre como é trabalhar no local. “É uma experiência. É trabalho, mas ao mesmo tempo reconfortante, aqui somos uma família. O Pedro (proprietário), nos dá muita liberdade e o contato com a natureza acaba relaxando o dia a dia”, ela conta.
Com os desafios no novo país de morada, Yanet divide o tempo no restaurante dando aulas de espanhol. “A gente tenta dividir o trabalho, pois não tem jeito. Mas acaba que o cansaço das aulas acabo recuperando aqui: o Naturalis nos recarrega.”
E o Naturalis carrega isto: um lugar onde diversas pessoas se encontram para esquecer dos desafios diários, sejam aqueles que trabalham ali ou quem passa pela cidade para driblar o estresse. E o restaurante continua deixando marcas: em sabor, em equilíbrio e em natureza!